[Diário de Patrick] A vida de Temore

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

[Diário de Patrick] A vida de Temore

Mensagem por Patrick Temore em 25.01.15 22:19


             

Primeiro Dia


Era uma manhã fria naquele que era para ser o ultimo dia do inverno, era 15 de janeiro no ano de 2004, o inverno prolongou muito mais que o normal, aquele seria um dia que eu jamais esqueceria, afinal foi o primeiro dia de minha vida, não tenho parentes, família ou qualquer laço de sangue, fui criado em um laboratório, a base de meu DNA foi tirada de um mutante conhecido como "Portador Original", não sabia seu nome, se ainda estava vivo, ou qualquer coisa à seu respeito, até onde sei eu deveria ser um clone com todas as suas habilidades, alguns conhecimentos como idioma nativo, noções básicas de direção, comportamento e coisas parecidas foram implantadas artificialmente em meu cérebro, entretanto o experimento falhou, e na manhã que desativariam a capsula de hibernação, me matando, a instalação foi atacada, alguém me tirou de lá deixando-me no chão frio, e foi ai que eu acordei.

Meu corpo doía, eu não sabia o que estava acontecendo, onde estava, qual era meu nome, ouvia o estalo da eletricidade em alguns cabos partidos, estava sem roupa caído no chão frio e molhado, o lugar estava vazio, tinha um cheiro metálico de sangue no ar, mas nenhum corpo presente, tudo estava quebrado, naquela sala circulas, construída em volta de um grande tubo de vidro, agora quebrado, uma água verde-claro ainda caia de dentro dele, vaguei pelos corredores com frio percorrendo meu corpo, olhei para uma parede de vidro quebrada e percebi que estava pálido, continuei vagando sentindo o frio aumentar, achei um corredor que parecia uma espiral para cima, até que achei uma porta de ferro muito grande, estava cheia de cortes e claramente alguém havia forçado ela para entrar.

Ao sair, havia uma camada de neve no chão, ainda sem roupas, e com o corpo congelando continuava andando, ainda não entendia o que estava acontecendo, eu apenas sentia muito forte dentro de mim que algo em chamava naquela direção, minha mente falhava naquele momento, até que ao longe vi alguém, perto de uma enorme fogueira, eu não conseguia vê-lo mas aquela pilha de corpos pegando fogo perto dele atrapalhou minha vista, naquele momento minha mente apagou e eu não lembro mais de nada.

Acordei com um cheiro bom, nunca tinha sentido aquilo antes, e um calor, ao me mexer senti um tecido me cobrindo, era pele de algum animal, não sabia qual era exatamente, mas a cabana da senhora Onnu nunca vou me esquecer, era muito aconchegante, ela estava preparando algo em um caldeirão de ferro, não sei como, mas sabia de que material era feito ele, ao me levantar dei uma boa olhada naquele lar feito de madeira, tinha uma mesa com apenas uma unica cadeira, alguns objetos em formato de animais, Ursos, Águias, Serpentes, e muitos outros feitos de madeira em uma prateleira com uma vela ainda acesa, quando me viu levantar, uma senhora de cabelos grisalhos, mas não parecia ser tão velha assim, se aproximou.

-Você acordou, graças aos deuses...

Falou ela indo até a prateleira com os animais juntando as mãos e baixando a cabeça, voltou até mim e logo colocou a mão sobre minha testa, as mãos dela pareciam um pouco frias, ou talvez eu estivesse quente, enquanto sentia uma leve dor de cabeça.

-A febre baixou, mas você ainda está quente, qual o seu nome menino?

Eu não sabia, e provavelmente ela percebeu, pois logo atropelou quando eu iria falar.

-Não tem importância agora, você está salvo aqui.

Colocando as cobertas de volta, a senhora Onnu me colocou de volta deitado na cama, estava com a mente tão agitada, mas de alguma forma ela me forçou a dormir novamente quando passou suas mãos em meus cabelos.


                     
avatar
Patrick Temore

Mensagens : 96

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: [Diário de Patrick] A vida de Temore

Mensagem por Patrick Temore em 26.01.15 0:29


             

Segundo Día


O meu segundo dia foi ainda mais confuso, depois de um tempo dormindo, acordei com uma discussão dentro da cabana, meus olhos ainda estavam abrindo quando vi a senhora Onnu colocar um homem para fora de sua casa e fechar a porta com um pouco de força, ainda não tive tempo para sequer imaginar o que estava acontecendo, como eu parei naquele lugar, como ela havia me encontrado, e a pergunta principal, quem eu era, mesmo com aquela idade, eu tinha por volta de 8 anos, já desconfiava que algo muito errado tinha acontecido, olhando para meu rosto enquanto levantava me sentando na cama, a senhora Onnu se aproximou de mim com um rosto triste, mas tentando disfarçar.

-Venha comer um pouco, deve estar com fome.

Falou ela colocando um prato de sopa em cima da mesa, o prato também era de madeira, assim como uma colher que ela colocou ao lado, estava agora vestindo uma bermuda de tecido de cor clara, tinah um bordado grosso, parecia ser feita à mão, quando em levantei, fui até a mesa e me sentei na cadeira, que deu um leve rangido, olhei para a senhora e perguntei olhando com uma expressão confusa e desamparada.

-Onde estou senhora? quem é a senhora? o que aconteceu?

Ao falar ela se abaixou um pouco colocando uma de suas mãos em meu ombro, com uma expressão um pouco marcada pela idade, ela deu um sorriso e falou com uma voz doce.

-Todas as suas perguntas vão ser respondidas... mas antes você deve comer.

Seguindo o conselho dela tomei aquela sopa, tinha um gosto bom, ainda estava um pouco quente, a senhora naquele dia estava particularmente nervosa, dava para ver enquanto ela limpava aquele caldeirão, mesmo estando limpo ela continuava esfregando-o jogando água em cima, foi quando alguém bateu a porta, impaciente continuava batendo persistente, a senhora Onnu foi até lá, e quando abriu revelou um homem com feições duras, cabelos pretos, olhos escuros, e pele um pouco bronzeada, se vestia da mesma forma que a senhora Onnu, camisa branca, calma e um colete em tons de terra e botas, entretanto a senhora estava com um vestido tem tom de barro, ele andou para dentro da casa e logo apontou em direção à senhora Onnu.

-Você não pode mante-lo aqui, é a anciã desta aldeia mas, não manda nela.

Pouco antes de terminar ele me percebe tomando a sopa, estava quase no fim quando seus olhos se encontraram aos meus, ele fechou sua expressão, e depois parecia revesar os olhares entre mim e a senhora Onnu, encolhendo o lábio inferior, ele foi até mim e com sua voz muito séria e olhando em meu rosto perguntou.

-Quem é você? foi você que matou aqueles homens? Responda!

Disse ele pegando em meus ombros, e me sacudindo um pouco, eu não sabia de nada, não naquele momento, quando fiquei em silêncio a senhora Onnu nos afastou um do outro e logo se pôs à me defender.

-Ele é uma criança, claro que não foi ele.
O homem retrucou.

-Mas você o achou perto da fogueira com mortos.

-Eu estava lá dentro... segui o vento até achar a fogueira, depois desmaiei.

As minhas palavras foram baixas e com um tom triste, até demais, eles se calaram olhando para mim, não convencido o homem olhou para a senhora e falou em tom de ameaça.

-Ele estava com eles, avisamos que nada de bom viria para eles com aquela ciência profana, eles provocaram a ira dos deuses, se você deixar este garoto conosco, irá nos dar o mesmo destino e "nós" vamos ter um problema.

Falou ele apontando para ele e a senhora Onnu enquanto falava "nós", saindo da casa em passos largos, ele olhou de relance para mim novamente, e depois desceu o batente indo embora andando pela neve, a senhora Onnu fechou a porta com o rosto abatido, e logo depois foi até o altar com as estatuas de animais, pegando um livro com capa de couro colocou-o sobre mesa abrindo o livro, tinham muitas figuras nele e estava escrito em uma língua que eu não conseguia entender, sentando-se ao meu lado, ela começou à me explicar.

-Achei você congelando na neve, e te trouxe para cá, eu senti que deveria ir até lé e provavelmente foram os deuses que me guiaram até você, nosso povo é contra chegar perto dos estranhos, eles poluíram nossa terra, provocaram os deuses, tentamos avisar que o que quer que eles estejam fazendo era contra a vontade deles, nós tentamos avisa-los, mas nenhum deles ouviu e atacaram nosso povo.

Folheando seu livro ela me mostrava as imagens e o que cada uma delas representava.

-Somos os Sk'ua uma tribo que venera os deuses criadores de tudo, Águia o deus dos céus, a Raposa o deus da noite, o Tigre o deus da manhã, o Macaco o deus da terra, o Peixe deus das águas, a Serpente o deus da morte, o Cavalo deus da vida e o Urso o deus do julgamento.

Continuando, ela parecia hesitar um pouco de me contar aquilo, percebia pela pausa que ela fez enquanto olhava para o deus do julgamento.

-Eu sou a anciã da vila, meu nome é Onnu Sk'ua, a oradora da palavra dos deuses, devo dar o exemplo seguindo os costumes, só existe uma maneira de você continuar vivendo entre nós, que é passando pelo julgamento, Coen nunca o aceitará entre nós de outra forma.

Ela folheou o livro e mostrou uma imagem de um homem de frente para um urso, eram rabiscos em geral em tons de terra e vermelho, mas dava para ler claramente a imagem.

-O deus urso deve decidir se o irmão é digno de viver entre os seus, ou morrer como um estranho.  

Enquanto fechava o livro ela recitava esse trecho.

-Você pode fugir, eu te dou alguns suprimentos e...

Seu rosto parecia triste, por isso coloquei minha mão sobre o ombro dela, surpresa ela falou.

-Eu vou para o julgamento, eu confio na senhora Onnu.

Falando aquilo, ela tinha uma expressão preocupada, mas me levou até a cama, me deixando lá ela falou em meu ouvido.

-Eu vou avisar, eles vão preparar tudo, caso não dê certo, você pode ir embora, não dê sua vida por isso.

Aquelas foram as ultimas palavras antes dela sair pela porta, me deixando sozinho naquela cama, no chão perto da lareira.


                     
avatar
Patrick Temore

Mensagens : 96

Voltar ao Topo Ir em baixo

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum