Diário de Greed

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Mensagem por Audrey Skorn em 21.10.14 6:29

A um passo do fim, o mundo parece ficar a cada dia mais cinza... Mas todo fim tem seu começo.
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Audrey Skorn

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Re: Diário de Greed

Mensagem por Audrey Skorn em 21.10.14 7:27

Acho que antes de todo o fogo azul que circunda meus dias aparecer nestas linhas, é necessário lembrar algo que talvez um dia até mesmo eu esqueça: eu já fui uma criança, eu já me senti nervoso ao simples aproximar de uma garota especial na escola... Eu já fui um perfeito, completo e simples humano. Bom, ao menos gosto de pensar assim.

Ayla Sypher Skorn e Carl Skorn, estes foram meus pais. Eles nunca foram exatamente, como posso dizer... exemplares, mas se eu fosse olhar minha infância pela ótica real do mundo em que vivemos, jamais tive o direito de proferir uma palavra contra a forma que meus pais me criaram. Minha mãe sempre foi super protetora, ao extremo, e isso começou incomodar a partir dos meus 12 anos, provavelmente as coisas teriam piorado se eles tivessem continuado ao meu lado por mais algum tempo... Ou deveria dizer isso somente dela? Ainda me pergunto isso em algumas noites em claro.

Mas começaremos antes de meus 12 anos. Como praticamente qualquer outra criança no mundo, eu aceitei cedo a máxima de que meus pais eram a imagem da razão, que tudo o que eles diziam era a pura verdade, e apesar de ser um garoto curioso, minhas perguntas raramente tocavam em um ponto o qual eles não tivessem tranquilidade para organizar e me desfocar. Acho que já começa a ficar clara minha tendenciosidade a acreditar que havia algo de muito estranho com meus pais, mas isso é inevitável. Nunca conheci meus avós, nem tios, primos... Absolutamente ninguém de minha família paterna ou materna, nem tive irmãos e me alfabetizei recebendo aulas em casa, de minha própria mãe. Hoje olhar para tudo isso é bastante alienígena, mas até então tudo parecia perfeitamente normal, as muralhas construídas por eles em minha consciência cumpriam sua função.

Eu não recebia bastante atenção de meus pais, exceto, talvez, de minha mãe, que havia largado seu antigo emprego como bioquímica para se dedicar integramente à mim, por isso o "mundo exterior" nunca me pareceu algo necessário de se buscar, as coisas começaram a mudar quando, aos 6 anos, meu pai decidiu que eu deveria entrar para a escola regular, e os estudos em casa passariam a ser complementares. Eu lembro da véspera de meu primeiro dia de aula, chorava compulsivamente para continuar em casa "quero ficar com a mamãe, não quero ficar longe dela!" eu clamava. Mas meu pai teve pulso o suficiente para superar a minha relutância e de minha mãe, e hoje agradeço muito por isso.

O trauma de me sentir sendo tirado dos braços de minha mãe foi algo marcante, mas essa é uma fase natural, um momento de transição o qual quase toda criança passa, algumas de forma tranquila, outras nem tanto, algumas cedo e outras... Bom, outras aos 6 anos de idade. Independente disso, os anos os quais havia passado trancado entre livros, minha casa e meus pais logo mostraram-se um problema. A crianças atrapalhavam minha concentração nas aulas, eu não entendia como elas não conseguiam parar de conversar, e sobre cada coisa estranha! Chega a ser engraçado tentar lembrar da sensação de frustração após cada dia de aula, demorou algum tempo até me acostumar. Eu queria parar de frequentar a escola, estudar com mamãe era tão melhor! Mas uma vez mais a voz de meu pai soava mais alto, e eu continuaria naquela rotina pelo resto de meus dias acadêmicos... Mas as coisas iriam melhorar.

Eu nunca cheguei a me tornar alguém popular, ou mesmo algum qualquer. Era nitidamente tido como o nerd da sala, usava óculos de leitura desde aquela época, o que fazia do esteriótipo algo ainda mais natural para que eu incorporasse. Mas passei quatro anos estudando, basicamente, com a mesma classe. Mesmo que gerasse a antipatia de alguns por minhas notas impecáveis, com o tempo a aproximação dos demais, mesmo que lenta, passou a ocorrer com certa naturalidade, e eu comecei a formar alguma personalidade social. Meu pai ficava feliz a cada relato de conversa o qual eu trazia para casa, os quais eram vistos com desconfiança por minha mãe, mas no final das contas tudo aquilo parecia instigante, eu também precisava melhorar minha relação com os outros afinal, mamãe e papai eram pessoas diferentes, que precisaram se unir para me trazer ao mundo e me proporcionar tudo o que eu tinha, eu precisava incorporar aquele ciclo natural à mim mesmo, e essa conclusão foi a que me impeliu a buscar a aproximação dos demais.

Eu não era bom em esportes, minha aparência não era das piores, mas eu me vestia de um forma no mínimo peculiar e era socialmente isolado, no entanto eu tinha boas notas, e o motivo delas serem problemas era por pura inveja dos demais... E se eu pudesse dar a eles as notas que tanto queria? Foi um experimento genial, protótipos de amizades surgiram a partir daquelas colas desvairadas, mas logo percebi que nada daquilo era de fato real, era como uma chama que não emitia calor... E eu não me importava com isso, só queria que deixassem de me encher o saco, o que estava dando certo, para mim era o suficiente.

Em minha pré-adolescência eu já havia lido mais livros do que provavelmente a maior parcela de pessoas do mundo irá ler em toda a vida. Aquele hábito tão incentivado por meus pais passou a ser minha maior paixão, eu me sentia bem quando imerso naqueles universos paralelos, a realidade dos livros era melhor do que a que a que eu podia ver quando deixava suas páginas para trás. Mas com o conhecimento vieram as dúvidas, e passei a questionar meus pais de forma cada vez mais incisiva sobre nossa família, pedindo que fosse apresentado até os demais ramos de nossa árvore genealógica. No entanto tudo era sempre refutado por argumentos de caráter duvidoso, o que começou a gerar uma frustração acumulada dentro de mim mesmo, eu queria estar próximo de alguém que não tivesse apenas interesses pessoais com minha presença, e a escola não era um lugar que me fornecesse essa sensação. É certo que poderia aceitar esta sensação advinda dos meus pais, mas estava entrando em um período de descobertas, revoltas, rebeldias sem causa e amores infundamentados.

Minha juventude, creio eu, teve proporções muito menos arrebatadoras do que as da maioria, eu nunca cheguei a ter discussões reais com meus pais, me faltava ímpeto para isso. A figura deles era imponente, soberana, ameaçadora... não me sentia confortável para ir longe demais em minhas exigências, afinal eu já tinha tudo o que de fato necessitava, não era como se tivesse os argumentos necessários para confrontá-los, e assim os anos se passaram em um estágio morno, com uma convivência cada vez mais pesada, mas jamais aquela pólvora toda a qual eu acumulava foi ascendida, o destino agiu antes que isso pudesse ocorrer.

Eu já me sentia bastante preparado para uma vida independente aos 15 anos, e o impulso natural de me afastar de meus pais e buscar isso se fazia a cada dia mais presente em meus pensamentos, faltando um ano para ingressar na faculdade, aquela era a deixa que eu esperava para dizer "adeus", no entanto jamais poderia dizer esta palavra. Uma noite chuvosa, uma estrada sinuosa e um empurrãozinho do fardo inexorável da existência humana resultou na morte dos meus pais em um acidente de carro. Alguns desejos perigosos, principalmente em meados desta idade, parecem bem atraentes em serem cobiçados, mas as coisas mudam quando tais fatos lhe são simplesmente impostos. Eu estava sozinho, e precisaria aprender a lidar com isso.
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