Diário de Arthur Ur-Nungal

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Diário de Arthur Ur-Nungal

Mensagem por Arthur Ur-Nungal em 06.10.14 21:30



The way you did once upon a dream

Era uma tarde ensolarada do ano de 1415, eu me lembro bem. Uma tropa me acompanhava rumo para Kiruna, meu reinado, após uma batalha vitoriosa no sul. O vento frio castigava nossa pele, mas o sol surgiu dentre as nuvens para amenizar nosso sofrimento. Depois de cavalgarmos a manhã inteira, resolvemos parar para dar água aos cavalos em um riacho, e aproveitarmos para comermos alguma coisa antes de prosseguir com a viagem. Eu me afastei de meus companheiros, pois precisava pensar um pouco no que faria quando voltasse à Kiruna, já que haviam se passado quase 10 anos sem que eu envelhecesse, e era quando as pessoas começavam a notar que havia algo de estranho comigo. Para evitar maiores confusões, optava por viajar o mundo por alguns anos, e voltar como se fosse um parente distante querendo recuperar o trono de seu pai. Já tinha tudo combinado com a família de regentes do castelo, o que me garantia segurança na hora de fazê-lo.

Cheguei até às margens do riacho, e foi onde eu a vi pela primeira vez. Devia ter uns 16 anos na época. Não havia como não olhar para ela, com aqueles cabelos longos e verdes, banhando-se nua embaixo de uma pequena cascata. De alguma maneira, aquela excitante cena me paralisou, e eu nem ao menos consegui pensar em me esconder para observá-la melhor. Bem, esconder-me nunca fez muito o meu tipo. Apenas fiquei parado, olhando boquiaberto para a mulher de seios pequenos, cintura fina e um lindo rosto. Após alguns minutos, ela notou que estava sendo observada, e entrou em estado de choque ao bater o olhar em mim. Quando finalmente processou o que estava acontecendo, pulou no riacho, ficando submersa do pescoço para baixo, fazendo com que eu pudesse notar apenas seu rosto e seus cabelos.

Foi ali que eu soube que havia encontrado o que procurei por tantos anos deitando-me na cama de inúmeras pessoas. Era como se as nossas almas estivessem conectadas de alguma maneira. Inexplicável. Saí do transe em que me encontrava quando ouvi a voz de um dos meus cavaleiros me chamando. Não queria que ele visse a moça de cabelos verdes, ele não era digno de vislumbrar tal beleza, de modo que eu puxei meu cavalo pelas rédeas, e andei apressado ao seu encontro. No momento em que decidi olhar para trás, já não conseguia mais vê-la.

À noite, chegamos em uma pequena aldeia, onde estava ocorrendo uma espécie de comemoração. Rezando por uma boa cama e uma companhia adequada, Arthur e seus homens se uniram aos festejos. Após algumas canecas de uma bebida de nome desconhecido, e um sabor muito forte, Arthur já se encontrava levemente embriagado, já que o álcool retardava o efeito do seu fator de cura, e à noite ele não estava em plena forma de seus poderes. A festa já estava quase findando, quando Arthur resolveu entrar em sua tenda particular. Mas, a caminho de lá, percebeu uma certa movimentação suspeita na tenda destinada a seus homens. Ao espiar pela abertura da tenda, vi que um dos homens estava despindo à força uma garota de cabelos... Verdes?

-Solte essa moça, Wilheim! Agora! – Ordenei com uma voz firme, me aproximando a passos apressados. Ele apenas me olhou, bêbado, e continuou a beijar os seios da moça, que tentava afastá-lo, em vão. Ela não gritava, mas sua expressão facial deixava bem claro que ela não estava nesta situação por espontânea vontade. Meu sangue ferveu. No instante seguinte, Wilheim estava com uma espada de luz atravessada em seu corpo. Como de costume, não havia sangue em seu corpo, mas meus olhos brilhavam vermelhos pela raiva. O corpo de meu antigo companheiro de batalhas caiu no chão, morto.

Levou alguns segundos para eu entender, de fato, o que eu havia feito. Eu olhava para o corpo de Wilheim, pensando na besteira que eu havia feito por causa de uma mulher, quando senti o beijo úmido da garota em meu rosto. Ao olhar para ela, me deparei com um sorriso de agradecimento. Seu corpo ainda estava desnudo da cintura pra cima, de forma que ela tapou os seios com o vestido rasgado da maneira que pode. A espada de luz sumiu das minhas mãos, e eu prontamente estendi a minha túnica para que ela se cobrisse. Com um agradecimento silencioso, ela se retirou do local, parando na porta apenas para me dizer:

[color:3783=006600]-Meu nome é Isabella Birman, e eu serei eternamente grata ao senhor. – sem mais, sumiu sem deixar outros rastros, senão o perfume de flores que desprendia dos cabelos verdes e uma estranha sensação de que a veria novamente.

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Re: Diário de Arthur Ur-Nungal

Mensagem por Arthur Ur-Nungal em 09.10.14 19:14



The way you did once upon a dream

No dia seguinte àquela noite fatídica em que matei meu próprio companheiro de batalhas, resolvi tomar rumo para meu Kiruna antes que aquela garota dos cabelos verdes me enlouquecesse mais uma vez com sua presença. Qual foi a minha surpresa quando a vi junto ao meu cavalo, dando-lhe uma cenoura e acariciando seu pescoço. Ao seu outro lado encontrava-se outro cavalo, de pelagem malhada, desconhecido para mim, o que indicava que era a montaria da moça. Refleti um momento sobre o que deveria fazer e então me aproximei.

-Bom dia, senhorita Birman.

-Oh, bom dia Rei Arthur. – respondeu ela ao olhar para mim, sem que eu precisasse me apresentar. Embora aquela aldeia fosse pequena e deveras distante de Kiruna, ainda fazia parte do meu reinado, então não me surpreendia que ela soubesse quem eu era. Além do mais, as notícias de que o Rei estava hospedado naquele lugar já deviam ter percorrido a região. Fofocas sempre foram rápidas, desde a Idade das Cavernas. – Um belo cavalo esse rapaz aqui. – continuou, voltando seu olhar para o belo garanhão tordilho.

-Agradeço. – disse, me aproximando dela, segurando o impulso de tocar em seus cabelos. – A que devo a honra de sua presença?

-Bem, eu estou indo até a Vila de Odin, ao norte daqui. E pensei em deixar que os senhores me acompanhassem até lá.

-Seria uma honra. Entretanto, temo que corramos o risco de sermos atacados no caminho de volta, e talvez eu não possa garantir a sua segurança...

-Quanto a isso, não se preocupe, eu sei me defender.

Segurei minha língua nesse momento. Se sabia se defender, por que estava quase sendo estuprada por Wilheim na noite passada? Bem, era indelicado perguntar tal coisa, mas a maneira que ela me olhou, mordendo os lábios em um sorriso, me diziam que ela havia feito aquilo de propósito. Aos poucos, meus homens foram terminando de recolher as tendas e seus devidos pertences, e rumamos a marcha para o norte.

O caminho até a Vila de Odin era longo, de modo que teriam a companhia de Isabella por 7 dias. No primeiro dia, ela se mostrou uma menina bastante tímida, conversando apenas comigo, e cavalgando afastada de todos na maioria do tempo. Não podia negar que ela tinha uma conversa muito agradável, além de fazer bem aos meus olhos toda vez que olhava para Isabella. Parecia um tipo diferente de mulher, era doce, meiga e delicada, ao mesmo tempo que desprendia uma energia ativa e uma personalidade muito forte. Diferente das mulheres daquela época, ela cresceu sozinha, criou-se no meio da floresta, aprendeu tudo o que sabia das viagens que havia feito com apenas 16 anos.

Os demais dias seguiram no mesmo ritmo. Ao final do terceiro dia, um grupo de mulheres alcançou a nossa tropa. Eram todas mulheres que acompanhavam os exércitos e acampamentos, para limpar as feridas, recolher os mortos (ou seus pertences) e aquecer os homens à noite. Quando montamos as tendas à noite, duas delas aproximaram-se de mim, com intenções óbvias. Nunca fui o mais puritano dos homens, então não evitei os flertes, nem mesmo os toques. Uma das mulheres encostou seus lábios nos meus e, quando eu menos esperava, uma corrente atirou a garota para longe de mim.

No momento em que eu percebi o que estava acontecendo, eu comecei a rir. Isabella, com aquela expressão ingênua no rosto, jogou as duas mulheres para trás. Provavelmente quebraram alguns ossos na queda, pois ela não fora muito gentil. Aquelas correntes moviam-se como se obedecessem a comandos silenciosos da garota de cabelos verdes, o que me fez ter certeza de que ela não era alguém comum. Era como eu. Uma semi-deusa ou, como chamamos hoje em dia, uma mutante.

Quando terminou a sua pequena demonstração de poder, as correntes sumiram, e eu esperava que ela viesse até mim, mas fui surpreendido pois ela fez exatamente o contrário. Sumiu entre as árvores e não apareceu novamente até a manhã seguinte. Encontrei-a deitada ao meu lado, dormindo tranquilamente, como se nada tivesse acontecido. Tentei levantar sem acordá-la, mas era impossível, já que ela estava deitada em meu peito. Ao me mover, ela abriu os olhos e sorriu para mim. Ficamos alguns segundos nos olhando, o sol que nascia batia nos cabelos dela, dando-os ainda mais vida.

Eu a beijei. Ela correspondeu, pousando sua mão em meu rosto gentilmente e aproximando o seu corpo do meu. Não entrarei em detalhes, mas não preciso dizer o que aconteceu em seguida. A doce e tímida Isabella mostrou muito proeza sexual e, algum tempo depois, havia me deixado nu e completamente exausto. Ela, por sua vez, parecia ter recarregado suas energias. Por todos os deuses que eu jamais acreditei, que mulher era aquela?

A partir daquele momento eu já sabia: eu não iria deixa-la nunca mais. Quando chegássemos à Vila de Odin, eu diria aos meus cavaleiros que partissem sem mim, que falassem que havia morrido em batalha. De qualquer maneira, eu deveria sumir por algum tempo de Kiruna. Era a minha oportunidade. Eu tinha que verificar até onde aquela mulher conseguiria me envolver...

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Re: Diário de Arthur Ur-Nungal

Mensagem por Arthur Ur-Nungal em 11.10.14 16:46



The way you did once upon a dream

Se me conhecessem atualmente, as pessoas estranhariam a maneira de ocmo passei alguns anos de maneira muito simples ao lado de Isabella. Não havia nada de exuberante em nossa moradia, ela ficava perto de uma floresta, há meio dia de viagem da Vila de Odin, aquela mesma na qual eu resolvi que não voltaria para Kiruna. Não havia grandes luxos, e eu poderia facilmente ser confundido com um camponês ou caçador. Nem eu mesmo havia me imaginado viver em uma situação como aquela, pois sempre fui muito apegado ao meu prestígio, fama e ouro que tinha como Rei de Kiruna.

Mas eu estava com Isabella... Nosso casamento ocorreu em uma cerimônia reservada, apenas os moradores da Vila participaram, a única coisa que eu fiz exigência foi para que tivesse boa comida e muita bebida. E Bella, o que dizer... Ela era doce, simples e muito gentil, e as crianças da Vila de Odin adoravam quando íamos até a cidade. Mesmo que ela fosse uma mulher de poucas palavras, todos pareciam gostar dela e, automaticamente, de mim também. Eu estava pleno, eu estava feliz. Eu mesmo já não me reconheço mais quando resgato essas lembranças, é como se eu tivesse visto em algum filme muito antigo, como se fosse a história de outra pessoa...

De qualquer maneira, a minha vida estava em um compasso tranquilo. Contudo, alguns de meus inimigos de guerra souberam onde eu estava, e que não havia tropas ou soldados comigo, e agiram de maneira mais meticulosa e furtiva que eu pude prever. Esperaram por anos estudando todos os nossos movimentos e coletando informações com diversas pessoas, até o momento exato de se vingarem da batalha em que tivemos anos atrás, em que eu dizimei o exército deles com minhas espadas de luz.

Foi em um fim de tarde nublado, eu estava voltando da Vila de Odin com alguns mantimentos. Bella não estava se sentindo muito disposta, então resolveu ficar em casa. Apesar de não gostar muito da ideia de deixa-la sozinha, ela insistiu que ficaria bem. E, é claro, não foi bem assim que aconteceu.

A casa estava com fogos altos devido o incêndio provocado. As correntes de Bella, que eu conhecia tão bem, esgueiravam-se para fora das janelas, como serpentes de metal ameaçadoras. Ao redor da casa estavam vários corpos mortos dos homens que a atacaram, um número tão expressivo que eu não conseguia contar com toda aquela adrenalina. A garota realmente sabia se cuidar. Mas, ao que pareceu, uma tropa grande de homens havia lutado contra ela que, de alguma forma, ainda estava na casa que queimava em chamas intensas. Sem pensar duas vezes, eu corri para dentro do lugar. Assim que cheguei próximo, as correntes sumiram, o que levava a crer que ela devia estar mais calma, ou que havia desmaiado. Torcia para que fosse a primeira opção.

No entanto, encontrei-a presa em meio aos escombros, uma parte de seu corpo pegando fogo. Tão rápido quanto pude, peguei-a em meus braços e corri para o lado de fora, uma parte de mim pegando fogo junto com ela mas, como de praxe, minha pele se curava no mesmo momento em que queimava, ao contrário de Bella. Pegando um balde de água cheio que trazia comigo da Vila de Odin, eu apaguei o fogo que agredia principalmente parte do seu rosto. Ela ainda estava desacordada, e a parte em que as chamas haviam queimado estava em carne viva. Meu coração parou. Ela não devia... Não podia morrer assim...

A tosse que deu após alguns segundos me deixou aliviado. Bella abriu os olhos e me olhou, sorrindo, como se nada tivesse acontecido, e ela tivesse sonolenta ao acordar em uma manhã ensolarada.

-Ah, minha doce Isabella. Como me alegra saber que estás viva. Jamais me perdoaria se algo lhe acontecesse... - Sorri de volta, mas as marcas em seu rosto fizeram o meu peito queimar, não pelo fogo, mas por ser consumido pelo ódio, pela raiva. Ela pareceu notar a mudando de expressão em meu rosto, e o sorriso também desapareceu de seus lábios.

-Arthur, não... – disse Isabella, quando eu repousei-a no chão e fui na direção de um dos homens que ainda estava consciente. A maneira com que eu arranquei a informação de onde estavam os outros não foi muito legal, aposto que você não gostaria de ter duas pequenas adagas de luz enfiadas em seus olhos logo depois de colaborar com as perguntas feitas. Deixei que ele agonizasse o quanto quisesse, dei um beijo na testa de Isabella, peguei um dos cavalos que estava descansado no estábulo, e fui atrás dos homens que conseguiram escapar.

Não sei quanto tempo levou, mas eu os cacei, um a um, proporcionando-lhes a morte mais lenta e dolorosa que poderiam ter. Matei cada um de maneira diferente: arrancando-lhes os testículos, empalhando-os em estacas, cortando-os apenas partes do corpo, esfolando a pele, entre outros... O último correu para a nossa casa, que estava completamente consumida pelas chamas nessa hora, com a esperança que minha querida Isabella compadecesse de seu sofrimento e impedisse que eu o matasse. Eles sabiam bem que ela era o meu ponto fraco, a única que conseguiria convencer-me de algo.

Para o seu azar, eu o alcancei antes que ele chegasse mais perto de Isabella, que me aguardava perto do estábulo, o rosto coberto de ervas para aliviarem a dor das queimaduras. Este queimou até a morte, exatamente como pretendiam ter feito com minha esposa. Enquanto eu olhava as chamas ao redor do homem desesperado, minhas forças pareciam ter acabado. Caí de joelhos no chão, culpando-me pelo infortúnio que havia acontecido com Isabella, sabendo que ela jamais curaria as cicatrizes que haviam ficado. Erro meu ter a deixado sozinho, erro meu... Eu devia ter imaginado que alguém tentaria fazer algo com ela, devia ter previsto, devia ter prevenido.

E então eu senti. Os braços quentes e delicados de Bella me envolveram, seus cabelos verdes caindo em minhas pernas, e aquele abraço de quem diz, silenciosamente, que tudo ficará bem. Que eu deveria me acalmar. Que ela estava ao meu lado, independente do que acontecesse. Que ela era o meu porto-seguro. Que me amaria além da eternidade.

Abracei-a com força. Eu a amava. Além da eternidade.

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Re: Diário de Arthur Ur-Nungal

Mensagem por Arthur Ur-Nungal em 11.10.14 16:59



The way you did once upon a dream

Era o grande dia. Isabella finalmente daria luz ao nosso primeiro filho e, embora ninguém tivesse me dito se seria um menino ou menina, eu sentia que o amava mais do que qualquer coisa nesse mundo, quase mais do que a própria Isabella. Desde o momento em que ela entrara em trabalho de parto, eu estive no lado de fora da tenda da parteira, esperando apreensivamente pelo momento em que seu nascimento seria anunciado.

Seria um garoto, de nome Dimitri como o seu avô, com os cabelos dourados feito o pai e com os olhos verdes da mãe, que herdaria o poder e a habilidade de algum dos ancestrais dos Ur-Nungal? Um novo ‘homem de gelo’, ou com velocidade tão intensa que os pais mal poderia ver seus movimentos? Ou seria Alice, uma doce e meiga menina, com os cabelos verdes da mãe e os meus olhos cinzas, uma adorável telepata ou mesmo uma conjuradora? Bem, não importava de fato, desde que tivesse com Isabella ao lado, nós poderíamos ter quantas crianças quiséssemos...

Eu estava mesmo muito ansioso. Minhas mãos suavam e eu sentia meu corpo todo tremer. E o sorriso não saia de minha boca.

Até o momento em que eu vi a parteira sair da tenda. Ela estava muito suada, com um pequeno embrulho nos braços, e não conseguia me olhar nos olhos. Quando me aproximei para verificar o que havia acontecido, percebi que o que ela trazer em seus braços era um bebê natimorto. O nosso bebê.

Meu mundo girou diversas vezes ao meu redor e pareceu parar apenas depois de alguns minutos, enquanto eu ainda estava estático em frente à tenda, com meu corpo inteiro tenso. Isabella devia estar arrasada, sabia o quanto ela estava feliz com em ter essa criança. E, em seu corpo imóvel, eu podia observar os cabelos dourados. “Era uma menina”, a parteira falou, “acho que o senhor deveria entrar e falar com Isabella”.

Eu sempre odiei ordens ou sugestões destas, mas estava tão fora de mim que havia esquecido até mesmo de respirar. Quando dei por mim, estava com a respiração ofegante, e meus pés se moviam lentamente para dentro da tenda. Achei que iria demorar anos para chegar até Isabella, e no momento em que dei o primeiro passo, foi que meu mundo desabou de verdade. Era tudo pior do que eu havia imaginado.

Isabella estava completamente encharcada pelo suor, sua cicatriz no rosto tapada pelos cabelos, os olhos fechados e uma respiração fraca, deitada em uma cama de sangue. Não sei como cheguei ao seu lado na cama, mas quando ela abriu aqueles lindos olhos verdes, antes tão brilhantes, e agora foscos, eu já não conseguia ficar em pé. Meus joelhos cederam, e eu caí ao seu lado, com a cabeça baixa e tentando não chorar. Tinha que me manter forte para Isabella. Minha Isabella, minha doce e querida Isabella.

-Eu sinto muito. – disse ela, com uma voz muito fraca. – Eu perdi nosso bebê. – Ergui minha cabeça, os olhos lacrimejantes, tentando lhe falar que estava tudo bem, que ela ficaria bem e que nós teríamos muitos outros bebês fortes e saudáveis. Mas eu simplesmente não conseguia. Minha boca estava entreaberta, e minha voz não queria me obedecer. Ao me ver nessa situação, ela sorriu. Um sorriso doce e singelo, tão característico dela, que sumiu tão rápido quanto surgiu. Lágrimas começaram a sair de seus olhos verdes. – Eu estou morrendo, Arthur.

-Não... – foi a única coisa que consegui dizer. Ela estendeu sua mão para tocar meu rosto. Minha mão automaticamente se pôs sobre a dela, enquanto a outra acariciava seus cabelos, que eu amava tanto. – Você não pode...

-Não tenho muito tempo. Prometa-me, Arthur, prometa que você não deixará de viver. Você é sempre será jovem, não quero que sua alma se vá junto comigo. – Bella falava pausadamente, cada palavra parecia muito dolorida. - Sei que vamos nos reencontrar algum dia, não importa quanto tempo leve. Não morra comigo, Arthie... Prometa

Não consegui falar nada. Quando ela terminou de falar, eu comecei a chorar, apertando sua mão em meu rosto. Jamais conseguiria viver sem ela, como poderia me pedir para prometer tal coisa? Minha doce Bella, aquela que havia me proporcionado os momentos mais plenos e felizes em toda a minha longa vida, aquela que eu sabia que jamais sairia do meu coração, que outra pessoa jamais tomaria seu lugar ao meu lado. Eu não podia perde-la. Meu corpo começou a brilhar enquanto eu tentava usar meus poderes de cura nela, mas eu, sempre tão egocêntrico, tinha habilidades que curavam apenas a mim mesmo. Era inútil. E só me fazia chorar cada vez mais. Já não conseguia manter meus olhos abertos, as lágrimas caiam sem nenhum pudor ou constrangimento. Em meu peito eu sentia que uma espada havia o atravessado e o rasgado completamente, deixando um enorme vazia depois que fora retirada. Como se pode viver sem respirar? Eu simplesmente não poderia viver sem ela...

-Quem irá entende-lo depois que eu morrer? Quem mais poderia marchar ao seu lado... – continuou ela, com a voz cada vez mais fraca, as lágrimas escorrendo de seu rosto, embora de maneira mais contida do que eu mesmo. - Meu amor... Quando eu penso que você vai viver sozinho a partir de agora, não posso deixar de derramar lágrimas... – Bella se contorceu e apertou a minha mão do jeito mais forte que conseguia, enquanto mais lágrimas escorriam de seu rosto. – Eu te amo. Prometa, por favor, que não morrerá comigo...

Estas foram suas últimas palavras. Sua mão em meu rosto ficou pesada e sua respiração cessou aos poucos, levando consigo o calor de seu corpo. Minha cabeça caiu sobre seu corpo, entre os longos cabelos verdes que eu tanto amava. Minhas lágrimas se transformaram em um choro compulsivo. Não saberia dizer quanto tempo fiquei assim, mas sentia que jamais conseguiria me levantar dali. De uma certa forma, eu havia morrido com ela. Ou ao menos uma parte de mim.

Com o tempo, concluí que fui uma pessoa diferente enquanto estive com ela. Era diferente antes, nunca fui o mesmo depois. Eu posso ter me envolvido com mil mulheres, e com tantos outros homens, experimentei e vivenciei coisas que não devem ser contadas nos livros, ou vista em filmes, mas jamais me senti completo novamente. Mesmo depois de muito tempo ainda me pego pensando nela às vezes, e a mesma sensação de vazio percorre meu corpo.

Falta-me alguma coisa. Como se suas correntes me prendessem à sua memória.

Se era amor? Não era apenas isso, não. Era outra coisa. Restou uma dor profunda, mas poética. Permaneço cego, ou quase isso: tenho uma visão embaraçada do que aconteceu. Uma inexistência que machuca... Eu era daquela mulher, ela era minha, e se não era amor, então era o que? Eu estava feliz, eu estava no compasso dos dias e dos fatos. Eu estava pleno, eu estava convicto. Estava tranquilo e sem planos. E, de um dia para o outro, estava sozinho, estava antigo, escravo, pequeno... Quando acabou, foi como se todas as janelas tivessem se fechado às três da tarde num dia de sol. Quem pode me explicar o que acontece? Eu tenho que responder às minhas próprias perguntas. Se não era amor, era da mesma família. Pois sobrou o que sobra dos corações abandonados. A carência. A saudade. Onde é que eu estava com a cabeça, de acreditar em conto de fadas, de achar que a gente manda no que sente e que bastaria apertar o botão e as luzes apagariam e eu retornaria minha vida satisfatória, sem sequelas, sem registro de ocorrência? Não era amor, era uma sorte. Não era amor, era uma travessura. Não era amor, era sacanagem. Não era amor, era sem medo.

Não era amor, era melhor...

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(Último parágrafo adaptado do livro Divã, de Martha Medeiros)
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Re: Diário de Arthur Ur-Nungal

Mensagem por Arthur Ur-Nungal em 21.11.14 23:36



Surpassing All Other Kings


Tudo o que eu me lembro foi de ver o seu corpo queimar na fogueira fúnebre, juntamente com o nosso bebê. Depois disso, eu apenas andei. Cruzei florestas, montanhas, rios, vilarejos e cheguei aos desertos. Vi o mar e suas ondas magníficas pela primeira vez. Contudo, o mundo ainda parecia cinza e completamente sem graça, melancólico, triste, sem vida. Sem Bella...

Eu não saberia dizer por quanto tempo fiquei vagando após a morte da minha doce Bella. Ao chegar até o mar, resolvi fazer da praia uma residência temporária. Meu passatempo preferido passou a ser admirar o oceano, suas ondas quebrando, e o azul no horizonte, encontrando o céu. Mesmo quando não havia sol, eu entrava em suas águas, e meu brilho atraia muitos animais marinhos para perto, sedentos por um pouco de luz e calor. Minhas lágrimas caíram por diversas vezes, até que meus olhos secaram totalmente. Não havia mais motivos para viver, e duas vezes eu tentei me afogar, desistindo sempre na última hora, quando meu corpo se curava e eu voltava à realidade.

Por fim, depois de muito tempo vivendo ali, resolvi voltar a Kiruna. O castelo de gelo, com suas paredes gélidas, sempre fora o meu conforto, meu porto-seguro.  Eu sabia que tinha ficado muito tempo fora, mas não o suficiente para ter meu rosto esquecido, era o que eu sempre acabava fazendo quando resolvia sair para conhecer o mundo. E eu sabia que o meu povo sempre estaria me aguardando ansiosamente.

Quando avistei o castelo, a aurora boreal fazia seu espetáculo no céu. Contudo, a visão que tinha abaixo não era exatamente o que eu esperava ver. Por toda a extensão do povoado, haviam casas queimadas, destruídas ou inexistentes. “Uma batalha”, pensei, “fruto do meu descaso com meu povo, vingança dos meus inimigos”. Conforme avançava pelas ruas largas, via meu povo, que era fielmente devoto a mim, em completo estado de míngua e miséria, pedindo, pelo amor do Deus do Sol, um pouco de comida para o viajando de armadura dourada.

Com os olhos estreitos pela raiva, eu olhei para as janelas que ficavam no salão do trono real. Havia uma luz trêmula ali, insinuando que alguém estava em meus domínios. Mesmo não tendo sentidos apurados, eu podia sentir de longe o cheiro do inimigo. Aproveitaram-se de um momento de vulnerabilidade para destruir o meu reino, o meu império. Pagariam com suas vidas.

Não tive qualquer dificuldade em passar pelos vigias dos portões. Uma luz forte em seus rostos, e estariam incapacitados de tentar se defender das espadas de luz. Como se pudessem... Andei pelos corredores do castelo até a sala do trono, com os braços cruzados, as espadas de luz dançando ao meu redor, fazendo um espetáculo de sangue com quem tentasse impedir meu caminho. Quando cheguei ao meu destino, encontrei o usurpador sentado no trono de ouro e gelo, que pertencia só e unicamente à família Ur-Nungal.

-Arthur Ur-Nungal. – começou o homem, com uma voz rasgada e fraca. Já havia passado há muito da idade de batalhar, e seus cabelos brancos caíam sobre os ombros, embaralhados e mal cuidados. Apenas um bárbaro que teve sorte por ainda não ter me encontrado em seu caminho. – Eu esperei o teu retorno por muitos anos, e finalmente apareceres quando eu já não posso mais travar minhas próprias batalhas. Porém, meu querido neto aceitou travar esta guerra por mim, por nosso sangue, por nossa honra.

-Não fale asneiras, velho lazarento. – desviei momentaneamente o olhar para o lado, bem a tempo de ver um rapaz de uns 20 anos se aproximar rapidamente e desferir um golpe certeiro em meu peito. Uma luz emanou do local ferido, logo ficando em um estado como se nada tivesse acontecido, assustando o jovem rapaz. – Um rato ousa tocar o leão... E pagará por sua insolência. – dito isto, três espadas de luz atravessaram o rapaz, fazendo-o cair morto no chão. Ainda com os braços cruzados, com as espadas acompanhando o ritmo, aproximei-me mais alguns passos do altar, onde o velho começara a tremer de medo. Talvez pensasse que seria fácil derrotar um Ur-Nungal.

A vida do velho acabou-se tão rápido quanto a do seu neto, e não fiz questão alguma de dar alguma honra ao homem, apenas fazendo o favor de não deixar seu sangue macular o trono de meus ancestrais. Alguns servos fiéis dos Ur-Nungal apresentaram-se ao seu verdadeiro suserano e livraram-se de todos os corpos. Quanto a mim, permaneci silencioso a noite inteira, e solicitei que a notícia se espalhasse, que o povo soubesse que o verdadeiro Rei de Kiruna estava em seu lugar.

E assim o fizeram. Ao nascer do sol da manhã seguinte, fui recebido por inúmeras pessoas, nobres que haviam sobrevivido ao ataque à cidade, servos e até mesmo alguns plebeus tentavam se infiltrar no castelo para ver o seu Rei. Eu, que apareci tão maltrapilho, com o cabelo comprido e barba longa e emaranhada, agora estava vestido nos meus melhores trajes: a armadura de ouro puro e a manta vermelha real por cima do ombro, bordada com o símbolo que representava meus ancestrais. De cabeça erguida, orgulhoso e compenetrado, segui até o altar, virando-me de frente para os presentes, com uma expressão arrogante que jamais pensei que exibiria tão claramente.

Bella ainda estava em meus pensamentos, é claro. Mas tornara-se uma lembrança, maravilhosa, mas apenas uma lembrança. Era preciso seguir a vida, e ela me pediu para não morrer com ela. Era o que eu estava fazendo agora. Embora soubesse que jamais esqueceria todos os momentos que passei junto à minha amada, agora guardaria ela em um local seguro, onde ninguém jamais a tiraria de mim: em minha memória.

-Longa vida ao Rei Arthur! – falaram, em coro, todas as pessoas.

“Eu não sou apenas um Rei” – pensei, erguendo o cetro para cumprimenta-los, e sentando em meu trono em seguida. – “Sou um Deus”.

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