Diário de Kaelle Grimm

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Diário de Kaelle Grimm

Mensagem por Kaelle Grimm em 05.07.14 16:00

Este diário é o livro de Fábula, que foi entregue no pacto feito entre as duas quando Kaelle estava próxima da morte. Nele há relatos terríveis de eras e eras, que somem entre as páginas, onde a mágica presente embaralha histórias, segredos, e a revelação do fim.
Na capa de couro há apenas metade do rosto, uma gravura simples do rosto de Kaelle, na contracapa, como se fosse continuação da mesma face, uma figura disforme, cadavérica, macabra, com o rosto manchado de tinta e olhos arregalados,com um sorriso estampado, psicótico e demoníaco, que parecem acompanhar os movimentos de quem olhá-lo.
Se o livro tem algo a ensiná-la irá responder as suas súplicas. Basta fazer as perguntas certas.

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Re: Diário de Kaelle Grimm

Mensagem por Kaelle Grimm em 05.07.14 17:09


Welcome to my Wonderland
Eu me lembro como começou. Diz-se que durou cem anos e renasceu como as lendas.
Diz-se que só é visto pelos desafortunados, perdidos e condenados a eternidade na solidão.
O nome não sei ao certo, jamais foi dito, e jamais será. A magia está em tuas palavras não ditas, na essência do mistério que ronda teu ser.
Fábula, assim se apresentou, naquela noite vermelha onde as brasas consumiam não só tudo a minha volta, mas tudo o que restava dentro de mim.
Alma, alma esta que me foi prometida e se esvaiu facilmente no medo da morte eminente que vagava ao meu lado, paciente, aguardando meu fim.
Foi em Novembro, quando as folhas caem sem medo, esperando que a terra as consuma, cansadas de suas vidas entre o inferno de um sol ardente e um inverno sem fim.
O destino é uma faísca, uma centelha, um mínimo detalhe que vaga no ar e deixamos passar tão sutilmente, inutilmente, e que gera uma catástrofe sem fim. O destino é um único fio, que se junta a um emaranhado, entrelaçado de pessoas e acontecimentos, gerando a mesma corda na qual você será enforcado no final.
As paredes deste quarto que insistem em permanecer cinzentas como no dia daquele acidente, como uma página que não passa.
Talvez seja isso, apenas uma página que não passa, mas devo admitir que me sinto confortável ao deparar-me com a história mais assombrosa e o capítulo mais glorioso.
Naquela parede há a marca de minha escolha, um monstro que guarda os medos, um anjo caído que insiste em velar meu sono.
Sonho? ...
A loucura em frasco, como um veneno, implorando que eu sacie minha sede. "Beba-me", num pedido agradável, numa voz afável que inebria minhas escolhas, para que meu"eu" possa sair.
Fica cada vez mais difícil distinguir Ela de mim.
Se esvai quem eu sou para que ela possa ser.
O único lugar para onde posso correr são meus sonhos, perdida num mundo em que ela já transformou.
Eu sou rainha, sim. Há dois tronos e nenhum rei. Ao meu lado uma carta coringa sobre o assento, com a face daquela entidade que reside em mim.
Eu afundo em águas turvas, provando do pecado que não cometi.
No reino de espadas o sangue é negro como tinta. As lágrimas ao chão parecem gotas de cristal.
O piso quadriculado e os guerreiros com escudos de dominó, espadas afiadas como ponteiros de um relógio.
O salão principal, assim como tudo a minha volta, parece em eterno luto e eu realmente acredito que parte de mim que tenha morrido, afinal.



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O Rei Branco

Mensagem por Kaelle Grimm em 06.07.14 18:53


O Rei Branco       


Havia um rei branco no pátio, praguejando contra as nuvens como se fosse forçá-las a descer.
Em sua cabeça uma coroa de gelo que soltava uma fina névoa, tornando o ar a sua volta uma brisa glacial. Trajado de branco dos pés a cabeça, com um sobretudo que arrastava ao chão naquela paisagem monocromática. Andava, inquieto, de um lado a outro, olhando para os céus.
Aproximei-me daquela estranha criatura.
-- Poderia me dizer o que traz o senhor ao reino das espadas? --
Ele pareceu não me ouvir, andando apressado, e mantendo seus olhos nas nuvens, pensativo.
Tratei de tentar acompanha-lo, andando rapidamente, segurando o vestido, quando o rei virou-se subitamente, parecendo ter escutado apenas meus passos.
-- O que faço aqui? Ora, que ousadia! Eu que devia perguntar!O que fazes no meu reino e quem és tu!?--
Dei um passo, recuando com a reação daquele homem.
Sua face era pálida como se vivesse um eterno inverno,seus cabelos eram brancos,seus olhos eram azuis como safiras, possuía uma cicatriz que percorria boa parte de seu rosto e uma em seu pescoço que indicava que havia mais delas pelo corpo, com a marca dos pontos que levara .
-- Eu sou a dama de tinta.
O rei arqueou uma das sobrancelhas e colocou as mãos nos bolsos do sobretudo.
-- E como está o ferimento? -- disse ele num tom mais calmo.
Automaticamente levei a mão no pescoço onde estranhamente pude sentir o relevo da cicatriz que se assemelhava a que ele possuía. Me espantei. Como? Como ele sabia? O desespero tomou minha face quando me dei conta. Se era um sonho e eu sabia, logicamente ele saberia também.
-- Está bem melhor.Obrigada. Foi você quem me salvou?
O frio parecia vir de dentro dele, emanando de sua pele.
-- Sim e não.
-- Ora, como assim? Foi ou não?
-- Talvez fosse eu, mas não eu realmente. Quem você acha que sou?
Aquela conversa me dava nos nervos, era certo que todo mundo em Wonderland era um enrolão de primeira.
Começou a nevar mas não uma neve qualquer, o rosto do rei desfazia-se em pequenos flocos de neve, indo para os céus, enquanto ele sorria.
Segurei em seu braço para que ele não fosse, mas era tarde demais. Em minhas mãos apenas restou um punhado de neve.
O frio percorreu meu braço e tudo ficou terrivelmente claro.
O que era aquilo? eu abria os olhos...era uma lembrança turva.
Foi daquele hospital. Havia um homem, era o rei branco com toda certeza, mas não possuía cicatrizes nem mesmo sua pele era tão pálida.
Dizem que sonhos são lembranças de realidades diferentes, de tudo o que poderíamos ter sido. Era um médico daquela clínica,não? O rei branco. Eu precisava encontrá-lo.
Eu gravei aquele rosto. Não o esqueceria de forma alguma.
Acordei, acordei realmente.
Estava no salão de pintura e acabei adormecendo sobre o esboço de um quadro que faria.
Rapidamente levantei-me e fui até a tela.
Aquela imagem que se formara em minha mente eu passava através da tinta fresca. Não queria dar tempo de esquecer.
Aquele dom estranho veio na hora certa. Estava perfeito, mas havia gasto 4 horas naquilo e já era final de tarde.
Foi quando o telefone tocou. minhas mãos estavam sujas de tinta, mas atendi assim mesmo.
-- Alô?
-- Senhorita Grimm, o quadro já está pronto para a exposição? Posso mandar buscá-lo?-- disse a voz feminina, rouca, ao telefone.
Olhei para o quadro, limpando as mãos e apoiando o telefone com o ombro para mantê-lo em minha orelha. Encarei o quadro por um breve instante e sorri.
-- Está sim, Diana. Pode mandar buscá-lo. Acabei de terminá-lo.
Foi levado, para que todos pudessem ver, o rei branco, metade a face do homem, metade desfazendo-se em neve, emoldurado, eterno, com um leve sorriso em sua face que lembrava o quanto o inverno pode ser cruel.



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White Queen of Black Heart

Mensagem por Kaelle Grimm em 12.07.14 16:57


White Queen of Black Heart     


Eu notei algo nestas páginas... o que antes era história, ficou em branco... e com isso, como se já não bastasse, minha memória está se esvaindo,como se a cada linha que desaparecesse fosse levada minha história, e temo que aos poucos seja como se nunca tivesse existido.
Não me lembro daquela mulher na parede ao lado de meu pai... quem é ela? Somos extremamente parecidas... Sei que deve ser minha mãe, mas não me lembro de nenhum momento com ela, não me lembro de sua presença, nem de seu rosto, se não fosse pelas imagens que ainda restam aqui.
Isso não vale de muita coisa se no final serei só um quadro na parede, vazio, e eu me esvair e ninguém lembrará de mim. Eu serei apenas um quadro numa parede branca, de alguém que jamais me conhecerá.
Eu não sei o motivo pra estarem tão bravos comigo quando ando pela vizinhança..parece que fiz algo errado mas não consigo me lembrar o que foi...
Eu tenho medo de não ser mais "eu".
De não acordar dos meus sonhos, embora prefira aquela realidade.
Seria assim, morrer? Esta seria uma morte mais agradável que queimar até o fim?
Quem fica no lugar? Fábula? É este então o "acordo"? Eu vivo mais um pouco, aproveito mais alguns meses e finalmente irei partir "em paz"?
Eu não quero isso... eu não quero morrer... eu não quero esquecer...
Alguém... por favor.... alguém pode me ouvir?

"Ninguém nunca poderá te salvar de você mesma..."

Eu estou condenada?

" Você pediu aos céus uma ajuda, uma salvação. Sim, eu venho pelas almas condenadas... Eu vim por você."

Eu me recuso... eu não vou deixar.

" Pobre criança... Quem você pensa que é? És uma tela em branco e eu apenas cubro com a mais grandiosa obra de arte... em breve não vão lembrar do que você foi... Somente do que EU SOU."

No vazio não se veem lágrimas.Fico perdida na escuridão até que uma voz me desperte e eu possa seguir em direção a luz, confinada a retornar a esta prisão dentro de mim.



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